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Crimes de ódio: como a ProPublica supriu lacunas nos dados públicos americanos

Rachel Glickhouse, da ProPublica, compartilha em entrevista a Fiquem Sabendo como a organização americana liderou 200 veículos de comunicação para produzir dados inexistentes

Texto por Larissa Picolli

São Paulo, julho de 2020 – “Nosso trabalho tem sido garantir os direitos da população de conhecer a realidade dos Estados Unidos e fazer parte dela”. É assim que Rachel Glickhouse, repórter e coordenadora de projetos da ProPublica, redação norte americana pioneira em jornalismo colaborativo de grande escala, define seu trabalho em entrevista à agência independente Fiquem Sabendo.

Assista a entrevista com Rachel Glickhouse, da Propublica, para a FIquem Sabendo

A agência, especialista em Lei de Acesso à Informação no Brasil (LAI), realiza um projeto de entrevistas em cooperação com o Internacional Center for Journalists (ICFJ), entidade global que apoia inúmeras iniciativas jornalísticas pelo mundo. A proposta da iniciativa é trocar experiências com profissionais que atuam diretamente com a FOIA (Freedom of Access to Information Act) – legislação americana de acesso à informação – e com a lei brasileira. Na primeira entrevista da série a Fiquem Sabendo conversou com Michael Morisy, cofundador e diretor da MuckRock

No início de 2020, Rachel Glickhouse concluiu um projeto que, idealizado para durar um ano, acabou levando três. Liderado pela ProPublica, Documenting Hate (Documentando o ódio) envolveu quase 200 veículos de comunicação nos Estados Unidos, que coletaram mais de 6 mil denúncias de crimes de ódio pelo país inteiro. Junto ao crowdsourcing, o conglomerado investiu em pedidos de acesso à informação em massa, para o FBI, para os 50 estados americanos e para mais de 20 cidades. 

“Durante esse processo descobrimos a importância de pedir o Boletim de Ocorrência para os crimes de ódio, porque os dados são só uma vista de cima. Para descobrir realmente o que está sendo denunciado, precisamos ver o boletim”.

Os “crimes anti-héteros”, por exemplo, estão em diversos relatórios do FBI – unidade de polícia do departamento de justiça dos EUA – e foram contestados por Rachel como um dos inúmeros erros de interpretação ou arquivamentos oficiais, “parece até que vivemos em uma ficção policial”. 

Em outro exemplo ela relata ter encontrado um caso de denúncia de crime “anti-branco”, cuja verdade consistia no depoimento de um homem branco que começou uma discussão e colocou a culpa em um homem negro. Além dos erros nos dados, a repórter ressalta um outro problema: a subnotificação. “Sabemos que 50% dssas vitimas nem denunciam e muitas vezes a policia não quer registrar”.

Questionada por Bruno Morassutti, co-fundador da agência Fiquem Sabendo, Rachel Glickhouse conta como seu relacionamento com a FOIA vem se fortalecendo à medida que enxerga o papel do jornalismo em suprir lacunas nos dados oficiais. “Descobrimos falhas no processo inteiro, e é papel do jornalista apontar exatamente onde tem um problema”. 

Após três anos trabalhando na documentação dos crimes de ódio nos Estados Unidos, ela conclui que falhas não se resumem as instituições de segurança pública, passam também pelo sistema judiciário e legislativo. “A polícia só quer saber se foi um assalto, um assassinato; os advogados só querem ganhar a causa e o crime de ódio é a menor parte; e as leis são diferentes em todos os estados, mesmo havendo uma lei federal”.

Como exemplo ela ressalta o fato de muitos estados não incluírem a comunidade LGBT+ na legislação. “Então se você sofrer um crime de ódio por ser gay, isso não é considerado dependendo do estado”.

Para novos aventureiros do acesso à informação, Glickhouse tem dicas. “Procure entender com clareza o que você está buscando, isso irá facilitar tanto para o oficial na hora de responder, quanto na sua compreensão sobre o material. Além disso, seja específico! Ser vago não lhe renderá respostas. E por último, tenha muita determinação, a lei pode estar ao seu lado, mas exigirá muita coragem e paciência da sua parte”, conclui a repórter.

Como parte do projeto de intercâmbio de experiências entre Brasil e Estados Unidos, a agência Fiquem Sabendo vem publicando ainda textos traduzidos de organizações americanas. Na quarta-feira (15), agência disponibilizou a tradução de uma entrevista com Jason Leopold, jornalista americano, contando como usa a Lei de Acesso à Informação dos Estados Unidos para investigar temas sensíveis, como Guantánamo e a guerra nuclear. 

Assista às entrevistas com especialista americanos e brasileiros:

> Transparência economiza dinheiro do cidadão pagador de impostos, afirma especialista americano

> Como as instituições de segurança lidam com a transparência, entrevista Karina Furtado Rodrigues

Veja os outros textos que traduzimos:

O “Terrorista da FOIA” compartilha segredos sobre transparência nos EUA

Requester’s Voice: entrevista com cofundador do MuckRock, Michael Morisy

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