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Editor do Washington Post: como acessar dados de empresas privadas com a FOIA

Steven Rich – editor de banco de dados da equipe de investigações do Washington Post – conta como acessou uma base de dados enorme da Drug Enforcement Administration (DEA), que rastreia as movimentações de cada pílula analgésica nos Estados Unidos.

Escrito por Julia Rock | MuckRock
Editado por Beryl LiptonJPat Brown | MuckRock
Tradução de Juliana Arthuso para a Fiquem Sabendo

A entrevista traduzida e reproduzida abaixo foi publicada originalmente em inglês na seção “Requester’s Voice“, projeto de entrevistas do MuckRock, organização americana especializada na FOIA. A publicação em português pela Fiquem Sabendo foi realizada com apoio do International Center for Journalists (ICFJ) – conheça o projeto!

O Washington Post e a HD Media obtiveram acesso ao banco de dados e aos documentos da justiça como parte de uma ação coletiva que cidades, vilas e condados estão conduzindo contra empresas que distribuem analgésicos. Steven Rich conversou com o MuckRock sobre a preparação para o lançamento do banco de dados, a localização de leads de FOIA e como usar registros públicos para fazer reportagens sobre empresas privadas.

O Washington Post inicialmente registrou uma solicitação de FOIA (Lei de Acesso americana) para o banco de dados da DEA em 2016. Como você descobriu que o banco de dados existia? E você entrou com um recurso quando esse pedido foi rejeitado?

Então, a pessoa que fez o pedido originalmente é o meu atual editor David Fallis. Estávamos interessados em fazer uma reportagem sobre a DEA em relação à epidemia de opióides no país e, ao pesquisar no site da instituição, encontramos arquivos de resumo desses dados que não eram tão detalhados quanto queríamos. Então nós fizemos a solicitação de FOIA. Eles basicamente nos recomendaram esse site. E foi isso. Acabamos não entrando com recurso para essa solicitação. Pedimos recurso e processamos vários outros pedidos no lote que enviamos na época, mas este – nós meio que percebemos que não íamos conseguir.

Então o banco de dados foi envolvido nesse processo enorme. Como você soube que estava sendo usado no processo e como foi o pedido do banco de dados?

Esse processo é a maior ação civil da história dos EUA. E temos acompanhando esse processo porque está em nosso escopo de cobertura sobre opióides, que começamos em 2016 e ainda não paramos. Mas percebemos que os municípios que processavam as empresas farmacêuticas estavam obtendo cortes nos dados do banco de dados da DEA para o processo. Por isso, decidimos enviar solicitações de registros abertos em alguns desses municípios que estavam obtendo os dados, como uma maneira de obtê-los que não fosse por meio da FOIA federal.

Então você estava solicitando dados dos municípios individualmente?

Sim.

E esses também foram rejeitados?

Sim. A DEA interveio e disse: “Não, eles não podem ter acesso a esses documentos”. E então acabamos intervindo no caso para obtê-los dessa maneira.

Como você se preparou para o lançamento dessa enorme quantidade de registros?

Pois bem, a DEA realmente tem alguns guias bacanas em seu site que falam sobre os dados e como eles são formatados, e o que estaríamos procurando, então pudemos nos familiarizar com os dados antes mesmo de obtê-los. Na verdade, nós estamos nos preparando para obter esses dados há três anos. E então trabalhei com outros dois repórteres de dados, Aaron Williams e Andrew Tran, para elaborar um processo antecipado que envolvia dividir o arquivo enorme em milhões de blocos de registros, converter esses blocos em arquivos Parquet e depois usá-los para análise, porque é significativamente mais rápido que o formato CSV. Nós realmente aperfeiçoamos isso. E sabíamos como fazer as coisas importantes, porque conhecíamos os dados muito bem naquele momento.

Assista a entrevista com Michael Morisy

Uma coisa que me impressionou nessa investigação é que foi possível usar registros públicos, não apenas para fazer reportagens sobre a DEA, mas também para fazer relatórios significativos sobre essas empresas farmacêuticas. Como os solicitantes podem usar registros públicos para obter informações sobre entidades privadas?

A maioria das empresas públicas interage com o governo de alguma forma. A mesma coisa ocorre com empresas privadas. Pensamos que estas empresas são basicamente impenetráveis porque são privadas. Mas tentamos obter algumas dessas informações através do governo porque o governo é bom em rastrear – então pode ser bom em manter esses bancos de dados. Assim, tentamos encontrar o melhor caminho para obtê-los, e acho que os registros públicos são realmente uma ótima maneira de pensar sobre isso, simplesmente porque eles interagem com tanta frequência.

Como você descobre quais registros o governo está mantendo e quais são as barreiras para obtê-los?

Às vezes, fazemos pedidos de FOIA na esperança de que existam dados. Ou seja, é algo que faz sentido para o governo manter, mas não temos necessariamente certeza se existe um estatuto que permita que eles mantenham algo assim. Então, quando tudo mais falhar, simplesmente pergunte. E o pior cenário que vejo nessas situações é que perdi cinco minutos escrevendo o pedido de FOIA.

Encontro muitas coisas nas notas de rodapé das auditorias. As auditorias são realmente um bom local para a descoberta de documentos mais profundos ou sigilosos, que não são disponibilizados ao público por padrão, mas que foram muito úteis para o governo na auditoria própria ou de empresas privadas. Eu pego muitas dicas a partir do que os investigadores do governo já estão olhando.

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Qual é a sua abordagem para esses pedidos baseados na esperança?

Majoritariamente, eu envio pedidos de coisas sobre as quais estou trabalhando no momento ou com as quais quero trabalhar. Mas, ocasionalmente, leio uma reportagem e penso: “Gostaria de saber se há dados sobre isso aqui”, e aí faço um pedido de FOIA e esqueço dele até que alguém responda. Mas, se eu receber uma resposta, posso entregá-lo aos autores daquela reportagem, e pode ser útil para que escrevam outra reportagem em sequência, por exemplo.

Quais são as maiores barreiras que você enfrenta nos registros de FOIA, especialmente quando procura documentos relacionados a empresas públicas ou privadas?

Eu acho que existem duas coisas. Uma delas é a confidencialidade que as empresas obtêm. Acabamos de receber uma decisão realmente terrível da Suprema Corte dos Estados Unidos, que vai tornar isso ainda pior. Mas o outro lado disso é o que chamo de “isenção de vergonha”. É como se alguém no escritório da FOIA olhasse algo e dissesse: “Isso é embaraçoso para nós”. E então eles encontram algum motivo para reter, esconder essa informação. E, honestamente, a maioria de nós não tem tempo para lutar por muitos anos para cada pedido de FOIA. Eu acho que o governo entende isso e, assim, a maneira como eles escondem muitas coisas de nós é encontrando motivos para não te dar a informação. E a melhor coisa a fazer é entrar com recurso para todos e forçá-los a realmente considerar o que fizeram.

Você tem algum conselho para os repórteres que tentam incorporar FOIA e registros públicos em suas reportagens?

Se você estiver enviando pedidos de FOIA, o melhor método é ser persistente, mas gentil. Descobri que, se você é gentil com as pessoas, mas também é insistente e liga pra elas o tempo todo, é mais provável que consiga algo do que quando você esbraveja com todo mundo.

Outro conselho que tenho é: sempre que eles quiserem cobrar de você, peça um resumo detalhado do valor cobrado. Muitas vezes, eles dizem: “Isso vai custar três mil dólares” e você diz: “Gostaria de uma lista detalhada”. De repente, o valor que te cobram é significativamente menor, porque eles não conseguem descobrir como discriminar três mil dólares.

Grande parte do esforço para publicação do banco de dados da DEA é feito na esperança de que repórteres e pessoas das redações locais usem esses dados para obter informações para suas próprias reportagens sobre opióides. Você tem algum conselho para as pessoas que desejam mergulhar nesse banco de dados e fazer reportagens sobre suas localidades?

Para começo de conversa, o conjunto de dados já é bastante interessante por si só. Queremos que as pessoas contem as histórias de suas comunidades. E, honestamente, as melhores histórias serão contadas pelas pessoas que vivem nessas comunidades. Eu acho que uma boa reportagem informa uma boa análise de dados e vice-versa. Eu quero ver as pessoas fazendo as duas coisas.

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Tem algo a acrescentar?

Eu acho que o Washington Post e outras grandes empresas – quando coisas assim acontecem, têm o dever de fazer o que fizemos aqui, que foi disponibilizar esses dados em partes menores para todos, porque temos a capacidade de fazê-lo e temos os recursos para isso. E eu acho que é óbvio, quando você pode finalmente pressionar para tornar algo público, deve fazê-lo. Dessa forma, vai realmente permitir que outros contem suas próprias histórias através desses dados. Pelo amor de Deus, eu não sou o melhor veículo para todas as histórias do mundo. E realmente espero que as pessoas o usem ao máximo e contem as histórias que precisam ser contadas.

Entrevista publicada originalmente no site americano MuckRock

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