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Governo Dilma monitorou rolezinhos antes da Copa do Mundo de 2014

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No início de 2014, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), o Ministério da Justiça (hoje Ministério da Justiça e Cidadania) monitorou os “rolezinhos”, como ficaram conhecidos os encontros de jovens da periferia em shopping centers de todo o país. O resultado da vigilância está resumido em um relatório de inteligência produzido pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). O documento, até então sigiloso, foi obtido com exclusividade pela agência Fiquem Sabendo para o Yahoo Notícias via Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Classificado como “reservado” e mantido em segredo durante cinco anos, o documento foi preparado seis dias após uma reunião de emergência convocada pela então presidente com parte de sua equipe no dia 14 de janeiro de 2014. Faltando cinco meses para a abertura da Copa do Mundo no Brasil, havia um temor nos bastidores de que os encontros se multiplicassem com a adesão dos manifestantes da tática de protesto “black bloc”.

O relatório, que expõe a preocupação do governo federal com “a possibilidade de ocorrência de atos de vandalismo e confrontos violentos”, classifica inicialmente os rolezinhos como um fenômeno cultural que eclodiu na periferia de São Paulo. O levantamento sigiloso também descreve os participantes dos encontros como jovens de baixa renda que buscam lazer, convívio social e espaço na sociedade do consumo, mas “sem qualquer viés político ou de interesse partidário”. 

O tom ameno, no entanto, muda no trecho no qual é relatado um tumulto no dia 11 de janeiro daquele ano em um rolezinho no Shopping Metrô Itaquera, em São Paulo, quando, nas palavras do ministério, houve confronto entre manifestantes e a Polícia Militar. Na ótica do Ministério da Justiça, a repercussão desse conflito atiçou novas formas de protesto através das redes sociais: “O perfil dos participantes e os objetivos dos encontros tendem a se distanciar, passando de um fenômeno cultural – eminentemente pacífico – para assumir características político-ideológicas”. Existia, ainda segundo o informe, a possibilidade de confrontos entre manifestantes e forças de segurança.

Na tentativa de corroborar as informações, um quadro anexado ao relatório exibe o volume de buscas do termo “rolezinho” na internet. Sem detalhar números, o gráfico sugere um aumento abrupto de pesquisas on-line um dia após o episódio no centro de compras da capital paulista. Consta ainda uma ilustração de um mapa do Brasil com um ranking de interesse pelo tema nos estados. 

Olho no lance

A preocupação com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil também fica evidente. Àquela altura dos acontecimentos, o trabalho de inteligência concluiu que a restrição na entrada de shoppings, a repressão policial e a reação da mídia despertaram o interesse de outros jovens e de movimentos sociais pelos rolezinhos.  

O documento apresenta um mapeamento de todos os rolezinhos que estavam marcados para acontecer nas cidades que sediaram as partidas de futebol. “Das doze cidades sedes da Copa do Mundo de 2014, apenas Natal (RN) não possui evento marcado para ocorrer nos próximos dias. Destaca-se que a maioria dos encontros são atos de protestos em decorrência das restrições de pessoas aos centros comerciais e contra a repressão policial”, aponta um trecho do levantamento. 

Há também uma planilha com datas, locais e detalhes sobre 15 encontros nessas capitais, sendo seis em São Paulo, dois no Recife, além de eventos únicos em Manaus, Salvador, Fortaleza, Brasília, Cuiabá, Curitiba e Rio de Janeiro. 

Movimentos sociais no radar 

Antes e após a circulação interna do relatório, ao menos sete liminares judiciais – todas listadas no relatório – proibiram a realização de rolezinhos em diversos shoppings do país. A Alshop, uma associação que representa mais de 200 estabelecimentos, foi citada por ter enviado ofícios ao governo federal solicitando uma reunião com Dilma e com o então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, um advogado e político filiado ao Partido dos Trabalhadores. 

O informe aponta que a Alshop queria debater a questão e solicitar a proibição dos encontros nos estabelecimentos. Não está claro no documento se essa reunião aconteceu. 

As restrições foram duramente questionadas por movimentos sociais, que consideram as medidas discriminatórias. Após organizarem manifestações de apoio aos frequentadores, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e a União de Núcleos de Educação Popular para Negros e a Classe Trabalhadora (Uneafro) foram citados no levantamento reservado.

Apenas um organizador dos encontros é mencionado. O nome de Fábio Fleck surgiu após ele ter sido notificado durante um ato “com um número reduzido de participantes e pacífico” em um shopping de Porto Alegre. Na ocasião, segundo o informe, ele foi notificado e, em caso de prejuízos, teria que pagar R$ 150 mil e responder judicialmente.

Procurado via e-mail e telefone, o Ministério da Justiça não se manifestou. 

“É uma bomba-relógio que vai explodir”

Luiz Peres Neto, pesquisador e professor de comunicação, ética e consumo da ESPM e da Universidade de Girona, na Espanha, compara a bisbilhotagem aos rolezinhos a uma doença que ele diagnostica como “capitalismo de vigilância”. Algo que, na sua visão, permeia os governos de diversos campos ideológicos. “O contato com a realidade está oxidado por esse expediente de vigilância, de coleta de dados e do controle”. 

Sobre a atmosfera daquele janeiro de 2014, Peres Neto lembra que Dilma Rousseff havia sido surpreendida no ano anterior por uma onda de manifestações, o que pode ter aumentado o nível de alerta. “Os relatórios internos não são pensados para informar. Não há contribuição de antropólogos, sociólogos, que poderiam ajudar a entender o problema. Há uma incapacidade de previsão”. 

Para o pesquisador, a supressão gradual das liberdades e a pressão do estado policial sobre o estado democrático de direito pioraram o cenário nos últimos seis anos: “O rolezinho fez lembrar que o poder de consumo não vai eliminar o ódio de classe, que a gente tinha a impressão que não existia, mas ele existe. Voltará a acontecer. É uma bomba-relógio que vai explodir”. 

Histórico de vigilância

Não é a primeira vez que um relatório secreto de monitoramento é revelado pela Fiquem Sabendo. Em junho de 2013, a Polícia Federal (PF) acompanhou de perto as movimentações dos protestos que varreram muitas cidades do Brasil. Os documentos revelados pela agência através da LAI mostraram a ação de agentes infiltrados em uma reunião de um dos movimentos de manifestantes.  

Naquele período conturbado do país, a facção criminosa Comando Vermelho planejou saques, ataques a forças de segurança e até o resgate de presos no Rio de Janeiro. As informações vieram à tona na newsletter Don’t LAI to me, da Fiquem Sabendo, que em 2019 teve acesso aos memorandos do Setor de Inteligência da PF.

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