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Das 3,2 mil espécies ameaçadas de extinção no Brasil, apenas um terço consta no Plano Nacional para Conservação

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Do total de animais e plantas em perigo,1931 são exclusivas do Brasil (59%); 19 espécies estão provavelmente extintas, segundo o MMA

Por Taís Seibt para Monitor de Dados Socioambientais

Da lista com 3286 espécies da fauna e da flora brasileira ameaçadas de extinção, apenas um terço fazem parte do Plano de Ação Nacional para Conservação (PAN). Dentre as 1931 espécies ameaçadas exclusivas do Brasil – 59% do total -, menos da metade (41%) estão no programa governamental. É o que revela análise do Monitor de Dados Socioambientais para o Achados e Pedidos, projeto da Abraji, Transparência Brasil e Fiquem Sabendo, com apoio da Fundação Ford.

Segundo a lista disponibilizada pelo Ministério do Meio Ambiente no Portal Brasileiro de Dados Abertos, dentre as mais de 3,2 mil espécies em risco, há  2113 plantas (64%) e 1173 animais (36%). Há 19 animais classificados com maior nível de perigo: são 17 possivelmente extintos no Brasil, um possivelmente extinto na natureza e um já extinto na natureza. 

Agropecuária é a principal ameaça 

Reconhecida pelas portarias do Ministério do Meio Ambiente nº 443, 444 e 445 de 2014, a lista de espécies em risco oferece informações mais detalhadas na edição de 2020, como a presença da espécie no plano de conservação, biomas de ocorrência e as principais ameaças. 

A agropecuária é a ameaça mais frequente, relacionada ao risco de extinção de 944 espécies (29%), seguida de degradação induzida pelo homem levando à perda de habitat, associada a 574 espécies (17%). A urbanização figura como terceiro perigo mais frequente, ligado a 334 espécies (10%), seguido por queimadas, mineração e caça ou pesca (8%).

Mata Atlântica é habitat de 73% dos animais possivelmente extintos

O bioma mais vulnerável em termos de biodiversidade é a Mata Atlântica, habitat único de 1585 plantas e animais ameaçados (48% do total), sendo que há outras espécies ameaçadas presentes em mais de um bioma, incluindo a Mata Atlântica. O Cerrado é o segundo com mais espécies exclusivas na lista, são 614 (19%), seguido de Amazônia, com 183 (5,5%). Na Mata Atlântica e no Cerrado a flora é mais ameaçada, representando 73% e 80% das espécies exclusivas de cada bioma, respectivamente. Na Amazônia, os animais correm mais perigo: são 67% das espécies encontradas unicamente naquele bioma.

Quando observadas as 19 espécies com risco mais alto, ou seja, as possivelmente extintas ou extintas da natureza, 14 são endêmicas da Mata Atlântica (73%). Aves e seres invertebrados, como borboletas, libélulas e formigas são maioria. 

“Essas espécies são bioindicadores, elas têm maior sensibilidade ao ambiente, são as primeiras a entender que o sistema está ‘doente’. Quando uma espécie entra na lista de ameaçadas, tem um aspecto simbólico importante, mas são antes de tudo sinais de alerta de desequilíbrio ambiental”, explica o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, Rafael Bitante. “É importante esse monitoramento das espécies ameaçadas para direcionar políticas públicas de conservação”, pontua o especialista.

Perda de biodiversidade afeta qualidade de vida nas cidades

Conforme Bitante, o número global de espécies ameaçadas na Mata Atlântica contextualiza o que esse bioma sofre de degradação historicamente, desde o início da ocupação do território brasileiro. “Os primeiros desmatamentos ocorreram para a expansão agrícola e esse desmatamento ainda acontece, mas é importante observar os aspectos que essa perda de biodiversidade gera na qualidade de vida das pessoas, pois a pressão contínua sobre esse ambiente prejudica também os serviços, como a qualidade e a quantidade de água para consumo humano”, exemplifica.

O caso da crise hídrica, que afeta o estado de São Paulo de forma mais grave desde 2014, é lembrado pelo especialista: “Tem uma relação muito forte com os ambientes de Mata Atlântica, a metrópole buscando água cada vez mais longe, utilizando o volume morto, menos chuva do que o volume usualmente esperado no período, está tudo atrelado, os reflexos da degradação são multilaterais e afetam o dia a dia dos cidadãos”. A Mata Atlântica atravessa 17 estados, do sul até o nordeste do país, 72% da população brasileira vive nesse território e é nessa região que 70% do PIB brasileiro é gerado.

Quanto às estratégias de conservação, Bitante defende que, além do PAN, que versa sobre a proteção de espécies de forma mais específica, outras políticas públicas são necessárias, como regulamentar a reserva legal prevista no Código Florestal, já que grande parte da vegetação remanescente está em áreas de propriedade privada. “Seria uma grande resposta do setor do agronegócio brasileiro para o mundo, porque árvores são o grande meio de neutralização de carbono na atmosfera, não tem outra invenção melhor, e as commodities do Brasil teriam um grande diferencial competitivo se esse elemento fosse incorporado”, observa o gerente da SOS Mata Atlântica. 

O Ministério do Meio Ambiente foi questionado sobre os critérios para inclusão de espécies no PAN, mas não respondeu à consulta até o fechamento da reportagem.

Conheça as 19 espécies mais ameaçadas no Brasil

1. Cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta)
Mamífero endêmico da Amazônia

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária

Créditos: Blogs de Ciência – UNICAMP (Eduardo Bessa)
2. Tietê-de-coroa (Calyptura cristata)

Ave endêmica da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária, Assentamento Humano: cidades

3. Pararu-espelho (Claravis geoffroyi)

Ave endêmica da Mata Atlântica e do Cerrado

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Ameaça Desconhecida; Extração Florestal

Créditos: Wikipedia Commons
4. Rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis)

Ave endêmica do Cerrado

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária

5. Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii)

Ave endêmica da Caatinga

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto na Natureza (PEW)

Principais ameaças: Agropecuária; Extração Direta: Caça/Pesca; Queimadas

6. Borboleta (Dasyophthalma vertebralis)

Invertebrado Terrestre endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária

7. Borboleta (Doxocopa zalmunna)

Invertebrado Terrestre endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Assentamento Humano:cidades

Créditos: Wikipedia Commons
8. Libélula (Fluminagrion taxaense)

Invertebrado Terrestre endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Assentamento Humano: cidades

“Libélula na mão” | Picasa/ Wikimedia Commons
9. Bagrinho-do-tietê (Heptapterus multiradiatus)

Peixe Continental endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Poluição

Créditos: Blogs de Ciência – UNICAMP (Eduardo Bessa)
10. Borboleta (Hyalyris fiammetta)

Invertebrado Terrestre endêmico do Cerrado e da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Assentamento Humano: cidades

Créditos: Laboratório das Borboletas UNICAMP (Hewitson, 1852)
11. Desconhecido (Hypsiboas cymbalum)

Anfíbio endêmico da Mata Atlântica 

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Poluição

Créditos: Wikipedia Commons
12. Rato-candango (Juscelinomys candango)

Mamífero endêmico do Cerrado

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária

13. Libélula (Mecistogaster pronoti)

Invertebrado Terrestre endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Assentamento Humano: cidades

14. Formiga (Mycetagroicus urbanus)

Invertebrado Terrestre endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Assentamento Humano:cidades; Poluição

Créditos: Wikipedia Commons
15. Choquinha-fluminense (Myrmotherula fluminensis)

Ave endêmica da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Assentamento Humano: cidades; Outras Atividades Econômicas: Indústrias

Créditos: Wikipedia Commons
16. Jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi)

Ave endêmica da Caatinga e da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Agropecuária; Mineração; Outras Atividades Econômicas: Energia

17. Mutum-do-nordeste (Pauxi mitu)

Ave endêmica da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Extinto na Natureza (EW)

Principais ameaças: Agropecuária; Extração Direta: Caça/Pesca

18. Desconhecido (Potamarius grandoculis)

Peixe Marinho

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Poluição 

Créditos: Wikipedia Commons
19. Ituí-maraúna (Tembeassu marauna)

Peixe Continental endêmico da Mata Atlântica

Categoria de ameaça: Criticamente em Perigo (CR)/Possivelmente Extinto (PEX)

Principais ameaças: Outras Atividades Econômicas: Energia

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